terça-feira, 9 de agosto de 2011

O PS, o Socialismo, o 25 de Abril, o PREC e o Capitalismo

Para quem, como eu, apanhou o fascismo em Portugal já na sua fase terminal, e militava nos movimentos estudantis, sabe perfeitamente bem que a Oposição existente e que dava o corpo ao manifesto era essencialmente constituída pelos militantes e apoiantes do Partido Comunista. A nível universitário, existiam alguns grupos da então chamada extrema-esquerda, sem qualquer implantação real fora das paredes das faculdades, os quais tinham não só uma boa implantação mas como eram muito activos na luta estudantil contra o colonialismo e o fascismo. Eram inexistentes quaisquer referências, seja nas universidades, seja fora delas ao que veio a constituir o PS a seguir ao 25 de Abril, a então ASP. Esta não efectuava qualquer trabalho, seja nas ruas, seja nas universidades, limitando-se os seus nomes mais sonantes a aparecer nos actos eleitorais de 1969 e de 1973 e a exílios mais ou menos dourados em diversas capitais europeias. É claro que existiam excepções, mas eram isso mesmo, excepções.


Com o golpe militar do 25 de Abril, logo transformado em revolução pelo Povo Português, todas essa gente chegou, desde os que viviam nos seus exílios dourados aos que lutavam na clandestinidade, passando pelos que desertaram do exército colonial. O que foi natural! Os que viviam nos seus exílios dourados, na sua esmagadora maioria militantes ou próximos do PS, começaram a participar com a "populaça" nas inúmeras iniciativas que tentavam arrasar a sociedade fascista em que vivíamos. Mas foi sol de pouca dura, pois rapidamente o medo a que o Povo quisesse o poder a sério, como dizia António Aleixo, rapidamente os fez cair no “lado certo” da barricada, afinal o lado onde já há muito tempo tinham caído, alguns deles mesmo desde o início da sua actividade política. E quando digo “desde cedo” foi logo a partir do momento que se aperceberam que a “maldita populaça” não se iria quere ficar pela mera mudança das “moscas”, queria mesmo ir mais longe! Desculpas, muitas, que o PC queria instaurar uma ditadura, etc., etc. Mas, se formos analisar os seus programas políticos e as suas afirmações, podemos verificar que esses senhores eram do mais radical que existia, sim, o socialismo é o caminho, que as nacionalizações já deviam ter sido feitas há muito, que a banca nacionalizada era um dos seu objectivos, que os ordenados deviam já ter subido mais, chegando-se ao ridículo do dirigente máximo do PSD, esse vulto do anti-fascismo de nome Emídio Guerreiro, afirmar que o seu partido era “marxista-leninista”, etc., etc. Cada qual se auto-designava como o mais revolucionário, o mais verdadeiro, aquele que iria conduzir o Povo à libertação da opressão!

Mas a realidade era outra e bem sinistra! A maioria deles, conluiados com pides e gentalha da extrema direita mais reaccionária, davam início ao maior período de ataques bombistas, incêndios de florestas, bombas em centros de trabalho de forças políticas de esquerda, carros de militantes de esquerda destruídos, tentativas de invasões de sedes partidárias de partidos de esquerda, assassínios tentados e alguns conseguidos, que se conheceu em Portugal. Gente importante do PS – refiro estes, pois continuam a afirmarem que “são de esquerda” tinha reuniões e contactos regulares e periódicos com os sectores fascistas, seja da Igreja Católica, seja do ELP/MDLP, seja das centrais de agitação e desestabilização dos países da Nato e dos respectivos serviços secretos, os quais operavam em Portugal com total à vontade! Sempre com Mário Soares à cabeça, bem acolitado pelo inefável e incansável Manuel Alegre!

Tudo fizeram, a tudo se dispuseram, para aniquilar o movimento popular, organizado seja em comissões de moradores, em comissões de trabalhadores, em comissões de soldados!

Mas tinham algum programa alternativo a oferecer a tais movimentos? Tinham, a sua extinção pura e simples, que isto da política é para gente culta e sabedora, ao Povo apenas se deixa que vote, o mais possível enquadrado, seja pela Igreja, seja pela Comunicação Social, seja pelo medo. Esse o verdadeiro programa alternativo da libertação que PS propunha de facto! O poder aos doutores, aos caciques, que estes estão muito bem informados e, sobretudo, sabem bem quais os interesses a defender!

Foi sempre assim! O PS de facto nunca foi mais do que uma organização ao serviço dos interesses da nova e velha burguesia. Velha, pois Mário Soares sempre viveu bem e sempre recebeu as prebendas do Grupo Mello, enquanto seu advogado, nomeadamente no exílio em S. Tomé, nova pois rapidamente deu cobertura a todo o novo-riquismo e à corrupção com que muitos engrandeceram o seu património. Papel que nunca largou.

Não está em causa o papel que muitos velhos dirigentes do PS tiveram na luta contra o fascismo, mesmo que só de cátedra! Eu mesmo tive como advogado Francisco Salgado Zenha, a defender-me num processo político em 1973. O que está em causa é que ser-se contra o fascismo, o que era positivo e constituiu a essência de muita gente, não significa que se seja pela libertação da opressão e da exploração. Nesse grupo de anti-fascistas, existia apenas o cimento da luta contra o regime, tudo o resto eram divergências, latentes ou não. Não eram anti-capitalistas, não eram contra a exploração do Homem pelo Homem, eram apenas contra o regime de Salazar e Caetano, alguns genuinamente por terem um espírito democrático, outros porque o regime fascista não permitia o “seu” desenvolvimento económico e, com isso, o seu enriquecimento!

Hoje, o PS em nada se diferencia da auto-designada direita, no que às questões económicas, políticas e sociais diz respeito. Tem um discurso diverso, pois a sua base eleitoral não é a mesma de um PSD ou dum CDS, mas a diferença fica-se aí, no discurso. Na prática, seja em Portugal ou nos outros países da EU, a social-democracia deixou de existir, o que não é pena alguma. Do ponto de vista filosófico, nada os distingue daqueles que se intitulam orgulhosamente de direita. Na política concreta e no que aos direitos liberdades e garantias diz respeito, para além da igualdade entre sexos, a sua acção tem-se caracterizado pelo ataque aos trabalhadores, fazendo pender claramente a favor dos patrões todo o quadro legal. Mesmo no que às liberdades diz respeito, o papel dos trabalhistas ingleses na sua miserável acção na Jugoslávia, no Iraque e no Afeganistão, a miserável atitude do PSOE na corrupção e no terrorismo de estado contra os independentistas bascos, o papel que o “nosso” PS teve desde o primeiro governo constitucional na recuperação do poder económico por parte das famílias que eram o sustentáculo e os principais beneficiários do regime fascista e colonialista de Salazar e Caetano e em várias das guerras imperialistas lançadas pelos usamericanos, inserem-se num fio condutor de gente que não traiu porque nunca esteve do lado da luta contra a opressão patronal e a exploração capitalista. Ontem, como hoje, quando votam a favor que os Portugueses entreguem à banca 47.000 milhões de euros, que todos vamos pagar, para que os seus amigos e apaniguados accionistas encham mais os bolsos e não se esqueçam deles, quando “amanhã perderem umas eleiçoizitas” e, com isso, os tachos!

O desplante com que atacam tudo o que lhes cheira a Abril do Povo e, de sorriso nos lábios e olhar cândido, se afirmam serem de esquerda, daria vontade de rir, não fora o destino perverso a que conduziram e conduzem o País – um local sem esperança para as novas gerações, a terem trabalho, quando o conseguem, mal pago, sem direitos, sem mais regalias que a da sobreviverem para amanhã poderem continuar a serem explorados, tudo para que os seus donos amealhem mais lucros, comprem mais carros de luxo, corrompam mais, pervertam tudo em que tocam! Sim, esse foi, é e será o objectivo de tão distintos “socialistas/sociais-democratas”, o de nos conduzirem ao redil!

Até que a “populaça” lhes quebre os dentes e as fuças!

Bibliografia: É muito variada e de sectores tão distintos, desde Paradela de Abreu, homem totalmente emaranhado com os pides e demais fascistas ao tempo do PREC, para além dos “cónegos Melo” e demais reaccionários, ao próprio Mário Soares, indo até Eduardo Dâmaso, Álvaro Cunhal e a João Varela Gomes. E muitos mais autores se poderão consultar e incluir. Interessante é o livro de Pedro Ramos de Almeida, “O Dicionário Político de Mário Soares” ou de como é mais fácil apanhar um mentiroso de que um coxo!

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